
A política municipal muitas vezes nos reserva capítulos de profunda apreensão, e o cenário atual vivido no município de Praia Norte, na região do Bico do Papagaio, é o retrato fiel dessa realidade. Recentemente, uma decisão do Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO) determinou o retorno imediato da prefeita Bruna Gabrielle Neves Pires de Araújo conhecida politicamente como Bruna do Ho Chi Min ao comando da Prefeitura, após um período de 90 dias de afastamento cautelar decorrente de uma ação civil pública por improbidade administrativa movida pelo Ministério Público.
Contudo, se para a esfera jurídica o desfecho se deu por questões de trâmite processual, para a população e para o funcionalismo público municipal a volta da gestora está longe de ser motivo de tranquilidade. Pelo contrário: o clima nas ruas é de nítida revolta e de um temor generalizado que sufoca os corredores da administração pública.
A revolta de parte expressiva dos munícipes não surge do vazio. Ela é fruto direto da memória recente de uma gestão marcada por graves crises administrativas. Durante o período que antecedeu o afastamento, a cidade conviveu com o fantasma do abandono: serviços essenciais debilitados, a infraestrutura urbana negligenciada e, sobretudo, o drama desumano dos salários atrasados dos servidores públicos. Para quem vive em Praia Norte, ver o sustento de pais e mães de família retido e o município estagnado deixou cicatrizes profundas. A interrupção desse ciclo, ainda que por meio de um afastamento temporário, havia devolvido à cidade um fôlego de esperança e a perspectiva de normalidade institucional.
Agora, com a determinação judicial que viabilizou seu retorno ao cargo, o fantasma da instabilidade volta a assombrar a cidade. O que se observa entre os servidores públicos e cidadãos comuns não é apenas insatisfação, mas um medo palpável: o receio de perseguições, retaliações políticas e uma onda de exonerações em grande escala. O funcionalismo público, que deveria ser o pilar de sustentação de qualquer governo municipal, passa a temer que o retorno da prefeita se transforme em um instrumento de acerto de contas contra aqueles que manifestaram insatisfação ou que simplesmente colaboraram com a transparência durante o período de transição e investigação.
Uma administração pública republicana deve ser alicerçada no diálogo, no respeito aos direitos trabalhistas e na garantia da segurança jurídica e funcional de seus trabalhadores. O medo generalizado de perseguições revela o abismo que se formou entre o poder municipal e a sociedade que ele deveria servir. A população de Praia Norte e seus servidores não exigem privilégios, mas sim o básico: respeito ao dinheiro público, pontualidade no pagamento de quem trabalha e, acima de tudo, o direito de viver e trabalhar sem a sombra da coerção política.
A justiça determinou o retorno legal da prefeita ao cargo, mas a legitimidade moral perante a opinião pública e o respeito social não se decretam por meio de liminares. Cabe agora aos órgãos de controle, à Câmara Municipal e à própria sociedade civil organizada manterem uma vigília intransigente sobre os atos do Executivo. Praia Norte merece paz, estabilidade e respeito, e os cidadãos continuam atentos, vigilantes e com os olhos voltados para os próximos passos de uma gestão que tem o dever histórico de provar — se é que isso ainda é possível — que os erros do passado não voltarão a se repetir.



