Em pleno período eleitoral, a política vira pura magia. A última grande cartada do deputado Jorge Frederico é de uma generosidade emocionante: doar um veículo ao Conselho Consultivo das Associações de Bairros de Araguaína (CCABA). O parlamentar estufa o peito para as fotos e espera, claro, que o eleitor caia de joelhos em gratidão. Mas vamos desenhar a realidade, porque o marketing político subestima a nossa inteligência.
Enquanto a população de Araguaína e dos municípios vizinhos padece com a falta crônica de ambulâncias para transferir pacientes graves, a prioridade do deputado é motorizar uma entidade comunitária. É genial. Afinal, quem precisa de socorro médico quando se pode ter um carro oficial para fazer média? Quantas vidas ele vai salvar? Nenhuma. Mas para a contabilidade eleitoral, o rendimento é garantido.
O timing é uma coisa linda: o veículo surge exatamente agora, com o cheiro de urna no ar. Uma sincronicidade divina que só a sede pelo poder explica.
E para que serve a engrenagem dessas associações ligadas ao deputado? Tomemos como exemplo o Centro de Convivência do Bairro São João. No papel, um lindo projeto de amparo social. Na prática? Um salão de festas regado a muito forró, bebida alcoólica e detalhe crucial cobrança de ingresso na portaria.
Para fechar o enredo com chave de ouro, o presidente desse centro de convivência é, por uma dessas “coincidências” inacreditáveis do destino, assessor do próprio deputado Jorge Frederico. Tudo em família. Se você for lá esperando encontrar idosos recebendo assistência, vai quebrar a cara. O que menos aparece por lá é a terceira idade; o foco é o lucro privado e a manutenção de um curral eleitoral animado a base de álcool e dinheiro público. É para essa “relevância social” que o recurso do povo deve escoar?
A verdade nua e crua é que faltou vergonha e sensibilidade humana. Enquanto o cidadão do interior reza para não passar mal por falta de transporte, o grupo do deputado comemora mais quatro rodas para sua frota de campanha disfarçada.
Um carro de passeio rende fotos bonitas no Instagram e discursos no palanque; uma ambulância salva vidas no anonimato. Mas salvar vidas não dá o mesmo engajamento, não é, deputado? Entre o flash da câmera e o giro da sirene, Jorge Frederico escolheu o flash. O marketing não pode esperar; já o paciente na maca, esse que aguarde a próxima eleição.