
Enquanto pacientes peregrinam por hospitais regionais do Tocantins implorando por um comprimido básico, nos bastidores da burocracia estatal o descaso tem cor, cheiro e data de validade vencida. Em um depósito central estratégico de onde deveriam partir os insumos para toda a rede pública, a realidade encontrada por órgãos de fiscalização foi revoltante: pilhas e pilhas de caixas de medicamentos jogadas ao relento da incompetência, prontas para a incineração.
A bomba estourou após denúncias anônimas chegarem à Defensoria Pública, alertando que o descarte de uma carga milionária de remédios e insumos seria feito às pressas para esconder o rastro do desperdício. E não estamos falando de qualquer produto. Fontes internas revelam que o cenário dantesco contava com estoques inteiros de morfina, potentes medicamentos para o tratamento de câncer de próstata, terapias hormonais de alto custo e diversos tipos de soro hospitalar, itens cuja ausência nos postos e hospitais causa dor e desespero diário à população.
A farra com o dinheiro federal e a incompetência local
O mais revoltante nessa tragédia anunciada é a origem do prejuízo. Informações de bastidor confirmam que esses insumos foram adquiridos com recursos pesados enviados pela União ou seja, dinheiro do bolso do contribuinte federal. Contudo, a gerência, a logística e a distribuição ficaram sob a tutela exclusiva do Governo do Estado do Tocantins. O resultado dessa gestão desastrosa? Medicamentos caríssimos apodrecendo em galpões enquanto o cidadão ouve a velha e cruel desculpa de que “não há verba” ou “falta produto” nas farmácias dos hospitais.
Diante do flagrante, a Defensoria Pública não perdeu tempo e já acionou pesado a engrenagem de controle, colocando o Tribunal de Contas e o Ministério Público na cola dos responsáveis para responder por essa verdadeira ofensa à saúde pública. Além disso, foi exigida da Secretaria Estadual de Saúde (SES) uma devassa com a lista completa de todas as aquisições e lotes perdidos.
O gabinete do silêncio: Conforto e cegueira oficial
Fontes quentes de dentro da própria administração estadual escancaram o verdadeiro motivo de tanto caos: a total falta de comando e fiscalização. O secretário estadual de Saúde, Carlos Felinto, parece viver em uma realidade paralela. O alto escalão relata nos corredores que ele raramente coloca os pés em uma unidade de saúde, não anda pelos corredores dos hospitais para ouvir o clamor de quem sofre e prefere o conforto gélido de sua sala com ar-condicionado.
Quando o secretário ousa sair do gabinete para fingir vistoria, a encenação é patética: restringe-se a visitar a sala do diretor, bem longe da superlotação, da falta de médicos e do sofrimento real do povo tocantinense. É por isso que ele continua afirmando cinicamente aos quatro ventos que os administradores são “altamente capacitados” e que “está tudo bem” na rede pública. Afinal, quem está blindado por paredes frias e privilégios não enxerga a dor de quem espera na fila de um hospital regional.
Para completar o cenário de conivência, o governador Wanderlei Barbosa assiste a tudo de camarote, sem cobrar resultados práticos, metas ou fiscalização rigorosa de seu subordinado. Enquanto a cúpula do Executivo faz vistas grossas, o tocantinense continua pagando a conta mais cara: a da própria vida, sacrificada pela negligência e pelo descaso institucional.
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