
A literatura produzida em Palmas reúne escritores que transformam memórias, experiências pessoais e elementos da cultura tocantinense em poemas, romances, contos e outras formas de expressão. Apesar de a capital viver um momento de crescimento da produção literária, escritores afirmam que ainda enfrentam desafios para ampliar a circulação de suas obras, conquistar leitores e garantir maior presença da literatura tocantinense em escolas, bibliotecas e no mercado editorial.
Com dez livros publicados e mais de uma década dedicada a projetos de incentivo à leitura, a escritora Irma Galhardo acompanha o processo de perto. Especialista em letramento literário infantil, ela desenvolve projetos de incentivo à leitura desde 2012 e é responsável pelo Projeto Caravana de Lendas do Tocantins, realizado há mais de uma década. Também é mestra da cultura popular certificada pelo Ministério da Cultura, integrante da Academia Brasileira de Contadores de Histórias e da Academia Palmense de Letras.
Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, Irma comentou que o cenário atual da literatura palmense é positivo. Segundo ela, a cidade reúne escritores, coletivos, editoras independentes, bibliotecas comunitárias e agentes culturais que vêm desenvolvendo iniciativas voltadas à produção e à circulação literária.
A escritora destaca ainda o papel dos editais de cultura, entre eles o Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), para viabilizar publicações e projetos literários. “Temos muitos editais de cultura que possibilitam isso, inclusive do Promic que é responsável por fomentar excelentes iniciativas. É claro que ainda existem desafios. O principal deles talvez seja garantir a continuidade e a sustentabilidade dessas iniciativas para além dos editais”, disse. No entanto, ela aponta que um dos principais desafios é garantir que essas iniciativas tenham continuidade para além dos períodos de financiamento.

A escritora e pesquisadora Lita Maria, integrante da Academia Palmense de Letras, também percebe um momento de crescimento da literatura em Palmas. Em entrevista ao Jornal Opção Tocantins, ela comentou que a capital vive uma fase de “maturação e consequente efervescência literária”, especialmente por ser uma cidade jovem, cuja identidade cultural ainda está sendo construída.
Lita tem sua trajetória ligada à literatura, à pesquisa e à formação de leitores. Natural de Trindade (GO), ela é autora de romances como “O canto da carpideira”, “Sobre Dora e dores” e “A casa de Todos os Santos”, que integram o chamado Ciclo de Vozes do Sertão. Mestra em Letras com pesquisa em Escrita Criativa pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), atualmente cursa doutorado na mesma área. Seus livros já foram indicados aos vestibulares da universidade e trabalhados em clubes de leitura.

Segundo Lita, além da produção literária, a cena cultural da capital também é fortalecida por espaços e iniciativas que aproximam escritores e leitores. “O Espaço Cultural José Gomes Sobrinho, a Biblioteca Municipal Jaime Câmara e o Núcleo Integrado de Leitura e Artes, além de iniciativas como a Roda Literária, abrem espaço para esse fortalecimento”, ressaltou.
Literatura inspirada pelo Tocantins
Embora com trajetórias distintas, as duas escritoras identificam no Tocantins uma importante fonte para suas produções. Para Irma, a relação entre sua literatura e o estado é inseparável. “Não consigo dissociar minha literatura do Tocantins. O estado é a matéria-prima daquilo que escrevo. Quando os leitores têm acesso aos autores da própria região, cria-se um sentimento de pertencimento que fortalece tanto a cultura quanto a formação de novos leitores e escritores,” disse.
A autora desenvolve seu trabalho a partir de pesquisas sobre a cultura tocantinense, incluindo tradições orais, lendas, costumes, personagens e memórias coletivas. Elementos como o cerrado, os rios, as paisagens, as manifestações populares e os saberes transmitidos entre gerações aparecem em suas narrativas.
Irma ainda afirma que o território influencia a maneira como constrói suas histórias. Para ela, valorizar a identidade cultural local também significa demonstrar que as histórias produzidas no estado possuem potencial para alcançar públicos além de suas fronteiras.
A relação entre território e literatura também aparece na produção de Lita. Para ela, a geografia do Tocantins oferece uma espécie de laboratório criativo, marcado pelo cerrado, rios, distâncias, religiosidade, pequenas comunidades e oralidade.
Sua literatura também é atravessada pelas memórias trazidas de outros lugares e pelas experiências construídas no próprio estado. “Quando há o encontro com as nossas memórias, reflexões e pesquisa, a escrita nasce!”, disse a escritora.
A autora chegou a Palmas ainda em 1989 e considera a convivência entre pessoas com diferentes origens e histórias um elemento fértil para a criação artística. “Tento mostrar um sertão que ultrapassa a geografia: um sertão de experiências humanas, através das vozes de mulheres”, finaliza.
Desafio do público após publicação
Apesar dos avanços na produção e no financiamento de projetos, as escritoras apontam que publicar um livro é apenas uma parte do caminho. Fazer com que essas obras cheguem aos leitores é outro desafio.
Para Irma, a literatura tocantinense ainda precisa conquistar maior espaço em escolas, bibliotecas e projetos de leitura. Ela considera positivas as aquisições de livros realizadas pelo poder público para ampliar os acervos escolares e bibliotecários, mas defende uma presença maior de autores regionais nesses processos.
Segundo a escritora, a aproximação entre estudantes e obras produzidas na própria região pode contribuir para a formação de leitores e para o sentimento de pertencimento cultural. “Valorizar os escritores da terra não é uma questão de reserva de mercado, mas de reconhecimento do patrimônio cultural do estado e de fortalecimento da identidade regional”, afirma.
Lita aponta outro obstáculo que aparece depois da publicação: a circulação do livro. Para ela, escritores independentes frequentemente precisam assumir funções que vão além da escrita, como edição, design e distribuição das próprias obras.
Embora as leis de incentivo possam facilitar a produção física dos livros, a escritora identifica dificuldades no acesso às grandes redes de distribuição e ao público de outras regiões.
“O mercado editorial é um dos grandes desafios enfrentados pelos escritores”, avalia. A concentração de oportunidades no eixo Rio-São Paulo também é apontada por Lita como um dos fatores que dificultam a projeção de autores de outras regiões. Para ela, ampliar a circulação é necessário para que a literatura produzida no Tocantins consiga romper os limites do próprio estado.
Fortalecimento
As escritoras concordam que o fortalecimento da literatura depende de políticas que ultrapassem o momento da publicação e contribuam para criar leitores e ampliar a circulação das obras. Irma defende a diversificação das fontes de financiamento. Para ela, além dos editais públicos, mecanismos de incentivo fiscal poderiam estimular empresas privadas a patrocinarem projetos literários e contribuir para uma maior estabilidade das iniciativas culturais.
A autora também comenta sobre a destinação de emendas parlamentares. Na avaliação dela, recursos públicos poderiam ser mais utilizados em projetos de incentivo à leitura, bibliotecas, ações em escolas e circulação de escritores locais. “Destinar parte das emendas parlamentares ao fortalecimento da literatura tocantinense significaria investir na formação cultural das novas gerações, preservar a memória do estado e ampliar o acesso da população aos seus próprios autores”, comentou.
Enquanto isso, Lita defende uma política permanente voltada ao livro, à leitura, à literatura e às bibliotecas. Entre as possibilidades, a autora cita a ampliação da aquisição de livros de autores locais. “Como Palmas, atualmente, possui projetos em curso, com bons frutos e uma sólida comunidade de escritores, penso que ampliar a aquisição de livros de autores locais para bibliotecas e escolas, fortalecer a presença efetiva de escritores em projetos de leitura da rede pública, ampliar o apoio aos clubes de leitura e desenvolver políticas de intercâmbio entre feiras literárias e festivais de outros estados, podem abrir portas para mostrarmos “a potência da literatura brasileira produzida no Tocantins” disse.
Para a escritora, investir na produção atual também significa pensar na memória cultural que será deixada para o futuro. “Fortalecer os autores que escrevem agora é também decidir qual patrimônio literário a cidade deixará para as próximas gerações”, finalizou.
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