
Depois de analisar o histórico judicial dos principais candidatos ao governo do Tocantins, a reportagem estendeu o levantamento aos candidatos a vice. No caso de Amélio Cayres (MDB), vice de Vicentinho Júnior (PSDB), foram encontradas investigações, ações judiciais e controvérsias administrativas que acrescentam uma segunda frente de questões jurídicas à chapa, já que Vicentinho permanece relacionado a um inquérito da Operação Overclean.
Ex-prefeito de Esperantina, deputado estadual no quinto mandato consecutivo e presidente da Assembleia Legislativa, Amélio não possui condenação criminal definitiva localizada pelo levantamento. Seu histórico, porém, inclui busca e apreensão no âmbito da Operação Fames-19, suspeitas patrimoniais levantadas pela Polícia Federal, ação de improbidade com bloqueio cautelar de bens e irregularidade no uso da cota parlamentar reconhecida pelo próprio gabinete.
A Fames-19 apura suspeitas de desvios em contratos de cestas básicas e frango congelado durante a pandemia. Amélio foi alvo de buscas em sua residência e no gabinete na Assembleia. Durante a operação, foram encontrados R$ 25 mil em espécie dentro de um veículo oficial utilizado por Raul Cayres, filho do deputado, que não era servidor da Casa. Raul declarou que o dinheiro era dele e que utilizava o automóvel para fins particulares.
Documentos apreendidos sobre imóveis registrados em nome de familiares e terceiros também levaram a PF a levantar a hipótese de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro por interpostas pessoas. Trata-se de uma linha de investigação, sem conclusão judicial contra Amélio. Até agosto, não havia condenação do parlamentar na Fames-19.
Amélio também se tornou réu em ação de improbidade relacionada ao Instituto Prosperar. O Ministério Público questionou cerca de R$ 600 mil em emendas indicadas pelo deputado entre 2016 e 2017 e apontou supostas irregularidades em contratações de shows. A Justiça determinou bloqueio cautelar de R$ 297,6 mil envolvendo Amélio e outros réus. A defesa sustentou que ele indicava as emendas, mas não era responsável pela execução dos recursos. Não foi localizada condenação definitiva no processo.
Verba parlamentar no posto do irmão
Conforme revelado pelo Jornal Opção Tocantins, entre janeiro e abril de 2025, o gabinete de Amélio recebeu R$ 181,2 mil em ressarcimentos pela Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Codap). Desse período, cerca de R$ 15 mil em combustíveis foram pagos ao Posto Augustinópolis, que tinha entre seus sócios Armando Cayres de Almeida, irmão do deputado.
A norma da Assembleia proíbe ressarcimentos de despesas em empresas que tenham entre seus sócios parentes do parlamentar até o terceiro grau. Questionado pela reportagem, o gabinete reconheceu o descumprimento da regra, afirmou que os abastecimentos ocorreram e informou que deixou de utilizar o estabelecimento depois da identificação da irregularidade.
Contrato de R$ 4,3 milhões
Já como presidente da Assembleia, Amélio tornou-se réu em ação popular que questiona a prorrogação do contrato de vigilância da Casa com a Jorima Segurança Privada. O aditivo de R$ 4,34 milhões foi assinado por ele em 5 de novembro de 2025 e prorrogou a contratação até novembro de 2026.
A Justiça negou a liminar que pretendia suspender o contrato, mas manteve o processo contra Amélio e os demais requeridos. A Assembleia foi excluída do polo passivo, com a determinação de inclusão do estado do Tocantins, enquanto a ação prosseguiu contra os outros réus.
Risco alcança também o vice
O levantamento sobre os candidatos a vice completa a análise feita anteriormente pela reportagem com os nomes que disputam o governo. Na primeira pesquisa, Vicentinho apareceu relacionado a um inquérito ainda aberto da Operação Overclean. Agora, a análise dos vices mostra que, na chapa de Vicentinho, as questões jurídicas não terminam no candidato ao Palácio Araguaia: chegam também a quem seria seu substituto imediato.
Amélio seria o primeiro na linha de sucessão de um eventual governo Vicentinho. Caberia a ele assumir o comando do estado em caso de afastamento, impedimento ou ausência do governador. O candidato a vice, por sua vez, chega à disputa depois de ter sido alvo da PF na Fames-19, além de figurar como réu em ações judiciais e ter no gabinete uma irregularidade com verba parlamentar já reconhecida.
A chapa concentra, portanto, questões jurídicas nos dois nomes que ocupariam o topo do executivo. De um lado, Vicentinho permanece relacionado ao inquérito da Overclean. Do outro, Amélio tem um histórico que inclui investigação federal, ações judiciais e controvérsia administrativa. A situação do vice passa a ser relevante justamente porque ele seria o responsável constitucional pela continuidade do governo caso o titular deixasse temporária ou definitivamente o cargo.
O Tocantins já passou por mudanças no comando do Palácio Araguaia provocadas por decisões judiciais envolvendo governadores. Em um eventual governo Vicentinho, a estabilidade institucional estaria ligada não apenas à situação jurídica do titular, mas também à de Amélio, o nome escolhido para assumir o estado caso o governador não pudesse permanecer no cargo.
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