
Entre os principais candidatos ao governo do Tocantins, Vicentinho Júnior (PSDB) é o único que pode chegar ao Palácio Araguaia com uma investigação criminal da Polícia Federal ainda em curso sobre fatos relacionados diretamente a seu nome. O deputado aparece em um dos inquéritos ligados à Operação Overclean, que apura suspeitas relacionadas ao desvio de recursos públicos, inclusive provenientes de emendas parlamentares.
A situação coloca uma variável a mais sobre um eventual governo justamente quando o próximo ocupante do Palácio Araguaia terá pela frente o desafio de mudar o patamar econômico do Tocantins. Atrair grandes empreendimentos, transformar investimentos em emprego e renda e garantir continuidade a projetos de longo prazo exige um governo com capacidade política e previsibilidade institucional. Uma investigação federal aberta sobre o chefe do executivo pode produzir o movimento contrário: concentrar parte da agenda política na situação do próprio governador e acrescentar incerteza às decisões que dependem do estado.
No caso de Vicentinho, a investigação já reuniu elementos financeiros. Relatório da Polícia Federal aponta que a GMD Borba Distribuidora Eireli, registrada em nome de Gillaynny Marjorie Duarte Borba de Oliveira, mulher do deputado, movimentou cerca de R$ 170 milhões entre janeiro de 2019 e abril de 2025 — R$ 85 milhões em entradas e R$ 85 milhões em saídas. Os investigadores apontaram indícios de que a empresa teria funcionado como uma “conta de passagem” e consideraram o volume financeiro incompatível com a estrutura identificada pela apuração.
A PF também cruzou movimentações bancárias com uma planilha apreendida com empresários investigados, na qual aparece o codinome “Vic”. Segundo os investigadores, foram encontradas coincidências entre datas e valores registrados no documento e transferências destinadas à empresa da mulher de Vicentinho. A apuração trabalha com a hipótese de que recursos atribuídos a “Vic” teriam o deputado como destinatário por intermédio da empresa.
A Polícia Federal chegou a pedir ao Supremo Tribunal Federal o bloqueio de R$ 420 mil em bens de Vicentinho e de sua mulher, além de medidas de busca. O ministro Nunes Marques negou os pedidos ao considerar insuficientes, naquele momento, os elementos apresentados para autorizá-los. A investigação relacionada ao parlamentar permaneceu em inquérito separado.
Vicentinho contesta as suspeitas e nega qualquer irregularidade. O deputado não está entre os 25 indiciados pela Polícia Federal na etapa da Overclean concluída em agosto e sustenta que as decisões do Supremo afastaram as suspeitas levantadas contra ele. Sua defesa utiliza a negativa das medidas requeridas pela PF como argumento de que não há elementos que demonstrem participação do parlamentar no esquema investigado.
Um histórico de instabilidade
O Tocantins já teve o comando do governo alterado por decisões judiciais mais de uma vez. Marcelo Miranda perdeu o mandato por decisão da Justiça Eleitoral. Mauro Carlesse foi afastado do Palácio Araguaia pelo Superior Tribunal de Justiça em 2021 e renunciou no ano seguinte. Em 2025, a Operação Fames-19 voltou a atingir o núcleo do governo estadual ao investigar suspeitas de desvios de recursos destinados à compra de cestas básicas durante a pandemia.
Os episódios têm origens diferentes, mas produziram um problema comum para o estado: a situação judicial de quem ocupa o poder passou a disputar espaço com a administração pública. Governos que deveriam concentrar força política na execução de projetos, relação com municípios, atração de investimentos e articulação com Brasília tiveram parte de sua agenda condicionada por crises no Palácio Araguaia.
Levantamento do Jornal Opção Tocantins sobre os principais candidatos ao governo não identificou, entre os demais concorrentes, situação equivalente à de Vicentinho: uma investigação criminal da Polícia Federal ainda aberta e relacionada diretamente ao candidato. Há nomes que já responderam a processos e tiveram acusações analisadas pela Justiça, mas os casos consultados não estão no mesmo estágio da investigação da Overclean.
A eleição de 2026 ocorre num momento em que o desafio do próximo governador não se resume a manter a máquina pública em funcionamento. O Tocantins precisa converter sua posição estratégica, produção agropecuária, infraestrutura e disponibilidade territorial em uma economia mais diversificada, capaz de receber empreendimentos de maior porte e gerar empregos de maior renda. Esse movimento depende também da confiança de quem decide onde colocar capital por dez, 20 ou 30 anos.
É nesse ponto que estabilidade política deixa de ser uma discussão restrita ao Palácio Araguaia. Empresas que estudam instalar indústrias, centros logísticos ou outros empreendimentos avaliam segurança jurídica, continuidade administrativa, infraestrutura, incentivos e capacidade do governo de cumprir compromissos. Uma crise no comando do executivo pode afetar essa percepção e reduzir a previsibilidade necessária para decisões de longo prazo.
O efeito também alcança a política. Novos desdobramentos de uma investigação federal envolvendo um governador teriam repercussão sobre sua relação com a Assembleia Legislativa, partidos aliados e secretariado. Quanto maior a dependência do governo de sua base para aprovar orçamento, projetos estruturantes e mudanças legais, maior o custo político de uma crise concentrada na figura do chefe do executivo.
Vicentinho chega à eleição sem condenação no caso e fora da lista de indiciados na etapa concluída pela Polícia Federal, mas com o inquérito relacionado a seu nome ainda aberto. Para um estado que já perdeu tempo político e administrativo com crises no comando do Palácio Araguaia, a investigação acrescenta uma incerteza justamente no momento em que o próximo governo será cobrado por dar ao Tocantins um salto de desenvolvimento e oferecer segurança para quem pretende investir no estado.
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