
Em 24 de junho de 1958, a seleção goleou a França por 5 a 2, em Estocolmo, na Suécia, e garantiu vaga na decisão da Copa contra os donos da casa. Aos 17 anos, Pelé marcou três gols no segundo tempo e massacrou os adversários que, até aquela altura, tinham o melhor ataque da competição e o Brasil, a defesa menos vazada. Depois da partida, a imprensa europeia começou a chamar o camisa dez de “Rei”.
Entretanto, um fato pouco conhecido, é que em 8 de março do mesmo ano Nelson Rodrigues escreveu uma crônica na “Manchete Esportiva” intitulada “A realeza de Pelé”. O jornalista estava empolgado com a exibição do garoto na partida em que o Santos goleou o América-RJ, no Maracanã, por 5 a 3, em 26 de fevereiro. O futuro Rei balançou as redes adversárias quatro vezes e foi escolhido como personagem da semana por Nelson Rodrigues.
No “Memória da Pan”, destaco trechos desta crônica monumental que tinha um tom profético: “Depois do jogo América x Santos, seria um crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de ‘o Domingos da Guia do ataque’. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: 17 anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de 40, custo a crer que alguém possa ter 17 anos, jamais. Pois bem: verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. (…).”
Em seguida, Nelson Rodrigues usa a palavra “realeza”: “(…) O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. (…) Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: ‘Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!’. (…)”
Por último, o cronista pernambucano fez uma projeção sobre Pelé na Copa que se aproximava: “(…) Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas de pau. (…) Com Pelé no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia com a alma dos vira-latas. Os outros é que tremerão diante de nós.”
É bom lembrar que, na Suécia, Pelé não se intimidou: marcou seis gols, que derrubaram galeses, franceses e suecos. Como diria Nelson Rodrigues, com o futuro Rei, o Brasil nunca mais seria um “vira-lata” no futebol.



