
Enquanto o Palácio Araguaia prefere gastar o latim com discursos de excelência e propaganda de fachada, a realidade nua, crua e entubada bateu à porta da Secretaria de Estado da Saúde (SES-TO). A partir desta quarta-feira (9), quem estava com cirurgia eletiva agendada na rede estadual vai precisar de muito mais do que fé: vai precisar de um milagre. A Cooperativa dos Médicos Anestesiologistas do Tocantins (Coopanest-TO) cansou de colecionar promessas emolduradas em papel impresso e puxou o freio de mão. O motivo? O calote institucionalizado que se arrasta nos bastidores da saúde pública.
Nos corredores abafados da própria SES-TO, o clima entre os servidores de carreira é de pânico misturado com tédio. “Aqui a gente vive de pirotecnia financeira e cronograma fakenews”, confidenciou, sob anonimato, um assessor com trânsito livre na tesouraria. Nos bastidores, a ordem superior é clara: empurrar com a barriga, fingir que o processo de Reconhecimento de Dívida anda e rezar para que o Ministério Público não olhe a fundo os extratos. Só que a conta de chegada não fecha. A Coopanest diz que o governo até ensaia alguns pagamentos de vitrine, mas deixa pendurado o calango do serviço prestado há meses, ignorando prazos e notificações reiteradas.
O resultado dessa engenharia de faz de conta sobra, claro, para quem está na ponta da linha esperando por um bisturi. Ficam sumariamente suspensos os procedimentos eletivos, as consultas e avaliações pré-anestésicas, os exames com sedação e aqueles famosos mutirões noturnos ou de fim de semana que servem para inglês ver e inaugurar placa. Pela cartilha da cooperativa, só respira sossegado quem chegar sangrando pela urgência e emergência, porque os plantões esses, sim, por pura decência médica continuam operando.
Para piorar o enredo trágico, a corda esticou de vez e os médicos acionaram o Ministério Público do Tocantins, o MPF e o Conselho Regional de Medicina (CRM). Ou seja, jogaram a papelada na mesa de quem tem poder de polícia. Agora, a volta dos cortes de bisturi depende exclusivamente de uma matemática básica que a gestão estadual parece ter esquecido na faculdade: quitar as parcelas vencidas e colocar em dia os últimos 90 dias de suor profissional. Até lá, o tocantinense que espere deitado literalmente, na maca fria da fila de espera.
Qual é a sua avaliação sobre a prioridade dada aos pagamentos de serviços essenciais de saúde em comparação com outras despesas do governo estadual?



