
A política brasileira tem essa mania linda de nos lembrar que ideologia, programa de governo e coerência partidária são apenas detalhes pitorescos para inglês ver. O último capítulo dessa saga de realismo fantástico envolve o recém-nascido União Progressista fruto da união carnal entre o União Brasil e o PP (Partido Progressista) e sua mais nova, e absolutamente surpreendente, paixão súbita pela campanha de Lula à presidência.
Que momento mágico para a democracia dos acordos de bastidores! O partidão que nasceu prometendo ser uma alternativa moderna descobriu, de repente, que o amor pelo projeto petista bate forte no peito. E qual foi o cupido dessa união cósmica? Um suave e delicado empurrãozinho do ministro Alexandre de Moraes, que gentilmente lembrou aos caciques partidários que, caso o romance não vingasse, as gavetas do STF com investigações cabeludas como a do Banco Master poderiam milagrosamente ser reabertas. Ah, o poder da persuasão jurídica! É quase um conto de fadas moderno: “Apoie o governo ou aceite a nossa profunda saudade das suas investigações pendentes”.
Enquanto isso, no querido Tocantins, o impacto sísmico dessa cartulária nacional promete cenas dignas de novela das nove. A senadora e candidata ao governo pelo agora fundido União Progressista, Dorinha Seabra, que passou anos vendendo uma imagem de oposição firme, agora se vê diante de um dilema que faria qualquer contorcionista do Cirque du Soleil sentir inveja.
Vamos ser francos: para a Dorinha, subir no palanque do Lula não é problema técnico algum. Afinal, a memória é curta, mas o currículo não nega: ela já foi vice líder do Lula no Senado e tem uma legião de servidores fiéis devidamente cedidos pelo governo lá em Brasília hoje. O “L” já faz parte da rotina, é só uma questão de reposicionamento de marketing.
O verdadeiro nó na garganta, a tragédia grega dessa história, é o desprazer de dividir o mesmo palanque com Kátia Abreu. Elas não se bicam, não se suportam e, se pudessem, a última coisa que fariam na vida seria compartilhar o mesmo metro quadrado do PT. É o ápice da humilhação política: ter que sorrir para a câmera, segurar a mão de quem você despreza e fingir uma unidade que só existe na fantasia do “Faz o L” por pura necessidade de sobrevivência.
A grande pergunta que ecoa nas esquinas do Tocantins não é sobre ideologia, mas sobre o limite da paciência humana. Ver Dorinha e Kátia dividindo o mesmo espaço, disputando quem faz a melhor cara de paisagem ao som de “Lula Lá”, é o tipo de entretenimento gratuito que nenhum serviço de streaming consegue entregar.
No fim das contas, a união (seja ela Brasil ou Progressista) prova mais uma vez que o único princípio inegociável da nossa classe política é a conveniência. Resta saber se o eleitor tocantinense vai aplaudir esse espetáculo de horrores ou se vai cobrar a fatura nas urnas. O amor, ao que parece, venceu… especialmente quando o fiscal do cartório se chama Alexandre de Moraes.
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