
A política tocantinense raramente decepciona quem aprecia uma boa comédia de erros, temperada com um toque dramático de esquizofrenia eleitoral. A senadora e recém-registrada candidata ao governo, Dorinha Seabra, resolveu estrear nas telinhas da TV Norte SBT Tocantins para apresentar ao eleitor sua grande aposta: o milagre da inovação sem mudar absolutamente nada.
Segundo a análise de bastidores, a brilhante estratégia da senadora é um verdadeiro estudo de caso da física quântica política. Ela conseguiu a proeza de afirmar que quer transformar o estado, mas que vai manter intacta a exata estrutura administrativa do atual governador Wanderlei Barbosa. É um conceito revolucionário: a mudança que continua igual. Ninguém muda continuando, mas pelo menos serve para garantir boas risadas de quem entende o mínimo de lógica semântica.
O Vácuo de Projetos e as Platitudes de Vitrine
Quando questionada sobre o futuro, a nobre candidata brindou o distinto público com um arsenal impressionante de palavras jogadas ao vento. Projetos estruturantes? Que nada! O plano de governo parece resumir-se a um pacote de boas intenções e “platitudes” requintadas, daquelas que soam bonitas no papel, mas derretem ao primeiro raio de sol da realidade. Prometer saúde e educação melhores enquanto abraça a gestão que patina nos índices do Ideb e empurra com a barriga hospitais regionais há meia década é, no mínimo, um ato de otimismo cômico.
O Triângulo Amoroso (e Mal Resolvido) da Chapa
Mas o verdadeiro suco de drama político não está nas promessas vazias, e sim no divã dos aliados renegados. Dorinha convive com um dilema digno de novela mexicana: como explicar para o eleitorado que seu grande amor político, o “senador de coração” e verdadeiro motorpropulsor de sua campanha, é o deputado federal Carlos Gaguim?
Sim, aquele mesmo Gaguim que desfila ao lado dela há mais de um ano nas ruas. O pequeno detalhe é que a vaga ao Senado na chapa virou um leilão de corações partidos. Afinal, como harmonizar o afeto por Gaguim quando outros pesos-pesados da base — como Eduardo Gomes, Wanderlei Luxemburgo, Ronaldo Dimas e até o deputado El Borges — também cobiçam o mesmo altar? Negociar, conversar ou harmonizar claramente não foram os fortes dessa pré-campanha. O resultado? Um arranjo de comadres onde todo mundo quer sentar na mesma cadeira, mas ninguém aceita dividir o assento.
No fim das contas, a estreia de Dorinha no horário eleitoral revelou menos uma líder com rumo definido e mais uma equilibrista tentando caminhar sobre a corda bamba da contradição, carregando no bolso um estoque infinito de discursos vagos e um arranjo político que range por todos os lados. Se o eleitor comprará a mercadoria, é outra história mas que o espetáculo é refinadamente irônico, disso ninguém pode duvidar.
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