Se alguém ainda tentava relativizar o comportamento de Wanderlei Barbosa, a semana tratou de encerrar qualquer benefício da dúvida. Em poucos dias, o governador empilhou três episódios que não apenas levantam questionamentos jurídicos escancaram um padrão preocupante de desprezo pelas regras.
Primeiro, a já conhecida declaração sobre suposta interferência de senadores para garantir sua permanência (ou retorno) ao cargo. Uma fala grave, daquelas que exigiriam provas ou, no mínimo, responsabilidade. Mas ficou no ar como tantas outras.
Na sequência, veio o que parece ter virado rotina: o atropelo deliberado da legislação eleitoral. Sem filiação consolidada, sem convenção, sem calendário aberto mas com pressa de pedir voto. Porque, aparentemente, cumprir etapas legais virou mero detalhe burocrático para quem se sente acima delas.
E o mais curioso ou talvez o mais revelador é o cenário. O suposto ato de propaganda eleitoral antecipada teria ocorrido durante um almoço oferecido pelo deputado federal Ricardo Ayres. Um encontro político que, em qualquer leitura minimamente séria, não deveria ser transformado em palanque antecipado. Mas virou. Sem constrangimento. Sem freio.
E então chegamos ao terceiro episódio que já nem surpreende mais. Quando o erro deixa de ser exceção e vira método, não há mais como fingir que é descuido. É escolha. É estratégia. É a aposta no “falo agora, resolvo depois” ou, pior, no “falo porque sei que nada vai acontecer”.
Afinal, para quê respeitar regras quando não há consequência?
Só que a legislação não é enfeite. A propaganda eleitoral antecipada é claramente regulamentada pela Lei nº 9.504/1997, especialmente nos artigos 36 e 36-A. E não deixa margem para malabarismo retórico: pedir voto fora do período permitido é irregularidade. Ponto.
Mas, no Tocantins, parece que a lei virou sugestão. Algo opcional. Algo que se cumpre ou não dependendo da conveniência política do momento.
E aí vem a pergunta que já começa a soar como cobrança direta: o Ministério Público vai continuar fingindo que não é com ele? Vai seguir assistindo esse desfile de irregularidades como se fosse apenas mais um capítulo da novela política local?
Porque o recado que fica, até agora, é perigoso: não é só sobre um governador que fala demais ou se perde no discurso. É sobre um chefe do Executivo que testa, repetidamente, até onde pode ir sem ser incomodado.
E, pelo visto, está indo longe demais.