
Quando o assunto é investigar os poderosos de Brasília, parece que a disposição de alguns parlamentares desaparece com uma rapidez impressionante. Foi exatamente o que aconteceu com os três senadores do Tocantins Dorinha Seabra Rezende (União Brasil), Irajá Abreu (PSD) e Eduardo Gomes (PL) diante do pedido de criação da chamada CPI da Toga, que pretende investigar possíveis relações entre ministros do Supremo Tribunal Federal, como Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Enquanto senadores de vários estados colocaram suas assinaturas no requerimento articulado por Alessandro Vieira (MDB-SE), os representantes tocantinenses preferiram fazer aquilo que a política brasileira conhece muito bem: absolutamente nada.
A ausência das assinaturas chamou atenção. Afinal, em campanha eleitoral o discurso costuma ser sempre o mesmo transparência, fiscalização, coragem para enfrentar os poderosos. Na prática, porém, quando surge a oportunidade de apoiar uma investigação envolvendo o topo do Judiciário, a coragem parece evaporar mais rápido que promessa de palanque depois da eleição.
No caso da senadora Dorinha Seabra, a história ganhou um capítulo curioso. Depois que o assunto repercutiu e a ausência dos senadores do Tocantins virou notícia, a parlamentar correu para protocolar, no dia 12 de março, um pedido de inclusão da sua assinatura no requerimento da CPI.
Sim, correu.
Até então, nenhum sinal público de interesse em apoiar a investigação. Nenhuma movimentação. Nenhuma manifestação. Apenas silêncio. Mas bastou a repercussão crescer e a pressão aparecer para que a assinatura surgisse de repente, como quem descobre subitamente um súbito entusiasmo investigativo.
Em nota enviada ao Jornal Primeira Página, a própria senadora reconheceu que, no momento da publicação da reportagem, sua assinatura ainda não constava no sistema. Ou seja: a matéria estava correta. O que mudou depois não foi o fato, mas a conveniência política.
Enquanto isso, os outros dois senadores do Tocantins, Irajá Abreu e Eduardo Gomes, seguem firmes na posição de espectadores silenciosos da investigação. Nenhuma assinatura. Nenhum gesto. Nenhuma explicação convincente.
E assim o roteiro político se repete: discursos inflamados sobre transparência quando o microfone está ligado, mas uma prudência quase reverencial quando o assunto envolve investigar figuras poderosas em Brasília.
No fim das contas, fica a pergunta que não quer calar: se a CPI é tão importante, por que a assinatura só apareceu depois da pressão?
Porque em política, às vezes, a diferença entre coragem e conveniência é apenas o momento em que alguém decide assinar um papel.
E no caso do Tocantins, aparentemente, esse momento precisou de um empurrão da opinião pública.



